domingo, 13 de janeiro de 2013

Pudim (porque eu não sei dar nomes pra textos)


Não é comum chegar em casa e vê-la submersa em água. O melhor seria dizer “não vê-la”. Esse é um problema em terrenos mais baixos que a rua. É um problema de casas que ficam na base de um morro altíssimo, bem no meio do buraco que se forma entre um morro e outro. Bem no cu do bairro.  É um problema meu, da minha casa. Quando chove muito é uma merda.
Não seria tão ruim se tivesse um lugar para a água escoar. E seria melhor ainda se não tivesse um rio que corta a cidade passando a 50 metros da minha casa.
Não fazia nem um mês que eu morava ali. Não conhecia nada, nenhum vizinho, nenhum bar… Tudo o que conhecia era o que ficava entre minha casa e o meu trabalho. Conhecia o rio também, apesar de ele não ficar nesse trajeto. Sabia que algum dia aquilo seria um problema.
Chegou o verão e depois da seca de muitos dias, não sei quantos, uma maldita tempestade com muita, digo muita mesmo, água resolveu aparecer também para fazer uma visitinha. Molhou tudo. Alagou tudo. Transformou aquele quarteirão em uma represa. Só dava pra enxergar o primeiro metro de cada casa.
Meus poucos móveis abaixo d’água. Meu computador abaixo d’água. Minha grande tv cara abaixo d’água. Minha pantufa fofa do rei leão abaixo d’água. Meus papéis de contas, trabalho, rascunho, todos abaixo d’água.
Minhas calcinhas abaixo d’água.
Minha vaquinha de pelúcia abaixo d’água.
Minha escova de dente abaixo d’água.
Tudo.
Abaixo d’água.
Minha vida abaixo d’água.
Minha primeira casa abaixo d’água.
Só me restava minha carteira, meu celular de pobre e meu notebook velho em uma mochila. E a roupa do corpo que, com certeza, não era a minha mais confortável e favorita.
Interpretei tudo como um sinal. Fui pro bar mais próximo que encontrei.
Tava louca querendo encher a cara e dizer “foda-se mundo, eu to viva e bem viva e vou viver, foda-se”. Queria transar com alguém. Algo bem selvagem, que me maltratasse muito e me fizesse sentir prazer ao mesmo tempo.
Queria sair correndo pela rodovia de moto sem capacete na velocidade máxima e me jogar no asfalto.
Queria adrenalina. Queria sentir coisas que nunca senti antes. Queria sentir que perder tudo na verdade não foi nada. Que aquelas coisas idiotas que ficavam trancadas naquela caixa decorada gigante enquanto eu trabalhava o dia inteiro, que essas coisas não significam nada, não tinham valor nenhum.
Queria que alguém ouvisse a minha história e dissesse “hey, foda-se a sua tv gigante e cara, foda-se a sua pantufinha fofa,  você só precisa respirar pra ser feliz”.
Essa era a oportunidade perfeita para eu largar tudo (que agora era nada) e sair por aí pelo mundo conhecendo novas culturas, tendo novas experiências, usando todos os tipos de drogas, vendo o pôr do sol cada dia de um lugar diferente. Era a oportunidade perfeita para eu fazer o que sempre sonhei, o que todos sonham. Ser livre. Sem medo de por tudo a perder. Me libertar da rotina, dos mesmos rostos, da monotonia, dos programas chatos de tv…
Passei duas horas no bar sonhando com a vida perfeita que teria dali em diante.
O celular tocou. Era a minha mãe. Disse que eu podia ficar na casa dela até tudo se ajeitar. Disse que eu podia ficar lá pra sempre e que foi uma péssima ideia quando eu resolvi sair. Disse que tinha um pudim de panetone me esperando.
Paguei as três garrafas de coca-cola que tomei e fui comer pudim.

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